Você sabia que as mulheres foram responsáveis pela descoberta da cerveja? Neste domingo, dia 08 de março, é comemorado o Dia Internacional da Mulher. E não poderíamos deixar a data passar em branco, e, claro, agradecer a elas pela descoberta dessa bebida, que é preferência nacional.

Há registros que há 4 mil anos a.C. as mulheres já produziam cervejas. Antigamente, a bebida era considerada uma criação divina e a primeira receita da cerveja, que se tem registros arqueológicos, é o Hino à Ninkasi, em homenagem a Deusa Suméria da cerveja, Ninkasi, que data 1.800 a.C. No documento, a receita era composta basicamente por frutos e cereais. Na Babilônia e na Suméria, por exemplo, as mulheres eram conhecidas como quase deusas por produzirem a bebida. Igualmente, há registros que somente elas podiam fazer cervejas nos Vikings. Os egípcios também cultuavam a deusa da cerveja Menqet e Sekhmet, filha do deus do Sol Rá, que tinha sede de sangue e era sempre acalmada com cerveja. 

Já no ano 5 d.C. surgiu o conceito “esposa cervejeira”, que eram mulheres que produziam cervejas para suas famílias e, se sobrasse algo, elas vendiam na porta de suas casas para outras pessoas na cidade (elas deixavam sinais na porta da residência, como folhas verdes). Era normal que quando elas produzissem pão já preparassem a bebida, por causa dos ingredientes.

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Foi a partir da Revolução Industrial, quando a cerveja começou a ser fabricada em grande escala, utilizando outros métodos para produzir e transportar, que a produção foi assumida por homens. Porém, não demorou muito para que as mulheres voltassem a lutar pelo seu espaço. Apesar de ainda ser um processo lento, elas estão conquistando cada vez mais o seu lugar no mundo cervejeiro, seja como mestre cervejeiras, sommelière, jornalistas especializadas, entre outros. Em 2014, a Bélgica ganhou a primeira mestre cervejeira trapista. Já em 2019, pela primeira vez, uma mulher ganhou o prêmio de sommelier de cervejas no mundo, o World Championship of Beer Sommeliers, e a vencedora foi a alemã Elisa Raus.

E a Mestre-Cervejeiro.com também acredita no poder das mulheres. Há quatros anos, Gabrielle Demozzi é sommelière da rede e afirma que nos últimos anos aconteceram muitos avanços em relação à valorização profissional das mulheres no mundo cervejeiro. “Eu espero que cada vez mais mulheres mostrem o trabalho maravilhoso que executam no mundo cervejeiro, temos um longo caminho a percorrer, mas buscamos cada vez mais espaço neste mercado”, explica.

Gabrielle comenta que já existem no Brasil cervejarias comandadas apenas por mulheres, como, por exemplo, a Japas Cervejaria, de São Paulo, e a Sapatista, no Rio Grande do Sul. Ambas buscam resgatar o papel da mulher na história da cerveja. Ela também cita a Noi, cervejaria de Niterói, que desde 2011 colocou três mulheres da família para comandar a gestão da empresa, que é familiar. “Precisei estudar bastante sobre cervejas, compreendendo a riqueza social, histórica e gastronômica que a bebida tem no mundo. Desde então, me apaixonei e me especializei na área cervejeira”, complementa.

Gabrielle Demozzi é sommelière da Mestre-Cervejeiro.com

Já na opinião da jornalista, sommelière de cervejas e mestre em estilos, Daiane Colla, as mulheres estão evoluindo e há melhoras significativas nos últimos anos. “Eu espero que a evolução seja mais rápida dos que nos últimos anos. Vejo que há mais pessoas preocupadas, interessadas e lutando para que as mudanças aconteçam. Que a gente passe a ocupar cada vez mais espaços, por termos competência para conquistar esses lugares”, diz.

Daiane conta que a paixão pela cerveja iniciou com a chegada de outros estilos de cervejas no Brasil. A vontade em conhecer e entender sobre os aromas e sabores fez com que ela fizesse um curso de Sommelier de Cervejas. “Passei a estudar e me envolver cada vez mais com o mercado. Acho que o mercado me escolheu. Comecei a trabalhar na área, as coisas foram acontecendo e hoje não me vejo fazendo outra coisa”.

Daiane Colla, jornalista, sommelière de cervejas e mestre em estilos

Ela também cita alguns nomes de mulheres inspiradoras e importantes no mercado de cervejas artesanais no Brasil, como Fernanda Meybom, Juliana Koerich Laureano, Luiza Tolosa, Jessica Lopes, Barbara Buzin, Patrícia Sakakura, Maíra Kimura, Fernanda Ueno, Rafaela de Conti, Julia Reis, Priscila Collares, Rosária Pacheco, Taiga Cazarine, Tais Suhre, Beatriz Ruiz, Beatriz Amorim, Cilene Saorin, Kathia Zanatta, Fernanda Lazzari, Etienne Meira, Débora Lehmen, Gabriela Müller, Bianca Telini, Anne Galdino, Mariana Schneider, Luana Cloper, Juliana Behr, Laura Aguiar, Gabriela Barbisan Kishimoto, Barbara Mortl, Nilana Souza, Marina Sartori, Fernanda Bressiani, Marina Pascholatti, Martha Ibañez, Tamires Cirilo, e muitas outras.

Dona da primeira coluna em rádio sobre cervejas no Brasil, a jornalista e sommelière Fabiane Arreguy diz que quando conheceu a variedade de cervejas artesanais existente ficou encantada. “Um dia fui convidada para um jantar harmonizado com cervejas. Fiquei tão encantada com tantas cervejas diferentes, que eu nem sabia existir, que ao sair do jantar, junto às outras mulheres participantes, comecei a fazer parte de uma confraria feminina para estudar cervejas. A partir dali, o interesse foi crescendo pelo assunto, até que o transformei em pauta para uma coluna na rádio onde eu trabalhava (CBN na época)”, lembra.

Fabiane Arreguy, foi a primeira mulher no Brasil a ter uma coluna em rádio sobre cervejas

A jornalista também afirma que o mercado tem muito mais mulheres atuantes, sendo valorizadas, graças ao trabalho de pioneiras como Cilene Saorin e Kátia Jorge, mestre cervejeiras em uma época que a função era só reservada para homens. “Elas abriram o caminho para todas nós que fazemos parte desse mundo cervejeiro de hoje. Sou extremamente grata a elas pelo trabalho que plantaram e possibilitaram a presença de mais mulheres no mercado cervejeiro. Prefiro dizer que desejo, espero mesmo, que o mercado cervejeiro artesanal tenha um crescimento sustentável e que, principalmente, seja mais inclusivo em relação às minorias e a todos os gêneros, não só a nós mulheres”, completa Fabiane para este Dia Internacional da Mulher.